afogá-lo-ei

Pode chorar nesse rio
que outrora servia de programa vespertino pra nós dois
lembra quando passávamos as tardes fingindo
que morreríamos aqui afogados em alguma catástrofe romântica
quão tolos e tontos e bobos éramos
mas há quem diga que era só amor.

Chore por mim um rio todo
encha os pequenos lagos
faça com que as roseiras cresçam sentindo “isso”;
dizem que é tristeza, e que é a mais bela das coisas que não se deseja sentir
então faça com que sintam por nós.
Sem piedade, não ousemos desfilar compaixão
primeiro as amarelas, depois as brancas, por fim as vermelhas.

Faça do jardim,
a maior lembrança de você e eu
uma que eu não possa querer
queimar em plena seca,
os galhos frágeis não suportariam tal consideração
que culpa tiveram, pobres coitados,
a estação já não lhes é favorável
não possuem essa culpa, não são proprietários
do único filho que gerado foi.

Mergulhe de uma vez e não prenda a respiração
sinta-se partir, fugaz
para um lugar bucólico
outrem chama,
o desespero entra pelos ouvidos e sai pelo nariz
suas entranhas agora são líquido, aquiete o desespero
é como voltar a nascer,
líquido.

Você parte sem ter sequer a chance de olhar pra trás
as pontes foram todas queimadas
não existe mais a chance de reconstruí-las
são poeira e um pedido
você grita, eu me ducho
você chora, não lhe acudo
e se não for pedir demais
que chore nas plantas, por favor.

One response to “afogá-lo-ei”

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *