apagão

No meio de um bosque, ainda distante, um clarão.
Será que esqueceram de apagar a luz?

Me desvencilho das carnívoras, das trepadeiras e dos espinhos.
Quanto tempo falta pra chegar?

A luz que se agigantava nos clarões, se apequenava nas partes mais densas.
Era úmido, quente e acolhedor.
O que será que plantaram por lá?

Quebra um galho, sobe um morro, chega mais.
É tão real. Bonita. Assustador.

Brilhante como uma pedra preciosa escandalosa.
Que grita a sua exuberância, cor e vivacidade naturais.

Parece natural, mas ao mesmo tempo não parece ter vindo da natureza.
Faz um barulho silencioso, é como uma vibração.
Será que posso chegar perto?
Mas já estou perto mesmo sem perceber.

Gotas vermelhas começam a aparecer no chão.
Onde chove sangue, senhor?
Não é chuva, não.

Sou eu, queimando com o calor do espécime mais fascinante que já conheci.
Ele queima a tudo.
Queima meus horizontes e me faz mal.

Manchas verdes, agora roxas, aparecem em minha pele.
Não consigo me afastar.
Não consigo deixar de olhar.

Caminho quase sem sentir os pés.
Minha respiração é ofegante, mas estranhamente silenciosa.
A temperatura deve passar dos 50 graus.

Seria isso uma pedra rara? Uma lâmpada de alta voltagem?
Um vaga-lume como jamais vimos nos programas de tevê?

Caminho com o que sobrou de mim.
Chego até o que parece ser um poço.
A luz quase me cega.
Tanto faz.

Não tenho forças pra descer.
Muito menos força pra levantar.

Ali por perto, antes de fazer uma última oração, noto companhia.
São ossos de outros seres curiosos que acabaram ficando por lá.

Eram brancos, gélidos, mas bastante iluminados.
Diria até que eram ossos felizes, se isso faz algum sentido.

Um deles sorri pra mim.
Como assim? O osso vive? E sorri?

Os ossos estão mais vivos do que nunca, acredite em mim.
Não se movem, não são mais carne, provavelmente não se lembram do que era pele.

A luz que chamava aos homens, aos homens destruía completamente.
Já lá, desprovidos de força, acabavam por definhar.
Mas não apagavam completamente.
Era a luz.

Fiz um desejo a ela.
Perguntei se podia me matar.
Já doía demais não poder mais viver.
Que ao menos me desse o direito de partir.

Nunca obtive resposta.
Outros se juntariam a mim no decorrer dos dias.
E dos meses.
E dos anos.

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