calado

Perambulando por um domingo, daquele jeito que se moribunda perto de morrer, acabou assaltado do nada, no meio de um trânsito de fuder. Mas no palavrão só pensou mesmo, nunca disse, e pensou só com a cabeça, porque nunca dizia o que pensava pra valer. Na verdade nem reclamou, mesmo porque nem uma reaçãozinha apareceu. Foi como se sentisse na hora, quando já era de ano, que as pernas que um dia voavam, hoje só se faziam doer.
Sentou ali e esperou que a noite caísse pra observar não sabia exatamente o quê, nem muito bem por quê. Podiam ser os prédios, podiam ser os carros. Podia ser sentado, deitado, de pé. Podiam ser as poucas pessoas que naquela hora ainda não estavam em casa e ligado a televisão. Pensou consigo “está tudo acabado”. Culpado, projetou: “me recolho até todo mundo esquecer”. Pois uma hora eles vão esquecer. Mas eu não vou esquecer. E se eu não puder esquecer?

Em sua cidade fantasma a placa anunciava: habitantes 1, almas 0.
Ignorou a mensagem, depositou o resto da grana da pouca vergonha que tinha recolhido no final do mês, e voltou pra casa. Ficou quieto porque depois de tanta vergonha era a única coisa que podia fazer.
O dia amanheceu. A rotina chamou. A maquiagem do dia que passou ficou na pia. Virou borrão.
Jogou água no rosto e viu seu espelho dizer o que precisava fazer: “melhor se calar do que ver seu nada morrer”. Sorriu sem sorrir. E prosseguiu. Calado.

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