carta de amor para quando não sabemos se é amor

A gente fica sem ar de tentar encontrar palavras e nem precisam ser as certas. Podia ser qualquer uma, mas tudo o que eu faço é sorrir. Mesmo que de um jeito enrolado. As frases parecem embaralhar, o fácil fica difícil, o difícil fica impossível. Não é o que ela diz, o que ele diz, é justamente o que ninguém diz. O barulho da resposta que não sai, esse é o som que eu quero morrer ouvindo. É o jeito que você não olha para mim e prefere contemplar o chão ou o céu. O medo de falar algo errado, de não parecer bom o bastante ou apenas bom. Do nada você começa a gostar de contemplar a respiração alheia, como se aquele inspira e expira fosse um filme do Bergman, um poema do Drummond. Você passa a evitar as perguntas óbvias e opta pela timidez dos rodeios. Você não aguenta, melhor, não suporta os dois-segundos-mais-longos-de-toda-humanidade para ouvir o que ela achou, ele achou, daquilo que você nem acredita que tomou coragem e disse, mas tomou e disse. É tão difícil… é a coisa mais difícil. E de repente você se arrepende e deseja não ter dito nada. Você se desespera. Deseja que tudo volte a ser como era antes. E se convence de que o que vocês tinham era o bastante. E que não precisava de jantar, de cinema, de futuro. Pensando bem, se você responder o que eu gostaria que você respondesse, talvez eu queira o jantar, eu queira cinema, eu queira futuro. Dou até um jeito de organizar o raciocínio. Achar conexões que façam sentido. E quando chegar a hora de encostar a cabeça na janela do ônibus, prometo inventar um nome para tudo isso. Mas enquanto esses segundos não passam, me contento em relembrar as covinhas que só um sorriso seu poderia me dar.

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