fila

De pulo em pulo, tiro em tiro, chego no paraíso. Fila. Ninguém sabe dizer se é pra entrar, pra sair, se estão por esperar um lançamento imobiliário celestial ou um novo restaurante ortomolecular. “Não sei, mas deve valer” – me diz o senhor com uma tatuagem de cereja no pescoço. Flutuando sob as cabeças novatas do recinto, um cubo branco mostra imagens de anjos ao redor do que parece ser um demônio em jaula, recém-capturado. Batem palmas, gritam, urram como alcateia de lobos ora faminta, ora sedenta. “Abençoe essa presa, senhor” – escuto quando dou meia volta e caminho, sem referência nenhuma, para longe da fila que podia muito bem ir daqui ao céu, se aqui já não fosse o céu.

Há algo de ordinariamente enganoso em como vendem o sujeito céu. As nuvens não parecem algodão, não há lagos, árvores, não há sequer um dizer avisando que você está ali, uma placa com letreiro em ouro ou bronze avisando que aquele lugar é, sim, um lugar e esse lugar é especial. Não há nada de muito especial. Pessoas aparentam estar felizes, confesso. Há mais sorrisos, por certo. É mais difícil, entretanto, distinguir as razões por trás de cada sorriso. Uma epidemia de maxilares travados, teorizo, e dói só de olhar. Não me parece haver qualquer tipo de conflito, uma briga sequer, mas eu bem sinto falta de brigar com alguém, algo, algum. Desferir um soco, um mata-leão, ou mesmo receber um. Há um quê de poético na forma como as brigas se dão: a discórdia, a inoperância, a ignorância, as diferenças em si. Tudo isso gera bons contos, histórias para passar adiante. Gera dor, sofrimento, angústia, claro, mas pensei que o céu seria um prêmio, não um “prêmio”. E aqui as aspas me soam traiçoeiras. Esperava só o bônus, o ônus me parecera terreno demais pra se infiltrar por essas bandas. Ledo engano. Isso daqui não rende livros, com algum esforço, no máximo, gera um roteiro de novela das sete. Sem os descamisados, sem o humor escrachado, e com começo, meio e final feliz. Acho um porre. Quero ir embora. Não estava a fim de interpretar o vilão.

 

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