fuga

Eu acabo de chegar do fim do hospício, que fica perto do fundo do poço, virando à direita, “faz o contorno até dar de cara com o alçapão”.
Eu acabo de levar um soco, mão cheia e um sopro de vento gelado no rosto, o sangue voando com gosto, manchou os documentos que eu levava pra dar baixa na secretaria de loucos.
Eu acabo de ter um plano: encarnar num moço, meio calvo, voz fina, violonista das 11 até quando o chapéu encher de moedas, bom moço, moço melhor que eu, não vou devolver.
Eu acabo de fugir de dois homens que gritam “pega ele” enquanto disparam raios numa arma de brinquedo, eles, coitados, humanos demais, limitados, nunca me alcançarão.
Eu acabo de acampar do lado de fora da vida, faz frio, mas o céu está deslumbrante, ideal para caçarmos cerejas no bosque enquanto você sorri falsamente fingindo ser um herói que eu mesmo inventei.
Eu, do alto da minha arrogância, não vi o violonista encarnado em mim, sonso, me envenenar com um copo de leite que ele disse ter comprado de uma raposa, ali na esquina do bosque.
Eu tomei o leite achando ser veneno, não sabia o tolo violonista que veneno não mata gente, veneno só mata veneno, e eu guardava uma dose em mim pra uma ocasião especial.
Eu acabo de derrotar o violonista, alérgico a lactose, que trouxa, desabou no meio da rota de fuga e me deixou lá, vitorioso, lúcido, morto.

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