ilha

Na ilha que eu nasci, não tinha carro, não tinha casa, não tinha gente – só eu. Não que eu não fosse gente, mas falo de gente como as outras gentes, pessoas pra prosear, passar o tempo, matá-lo quando fosse necessário. Nessa ilha, eu tinha paz, pode-se dizer assim. Eu tinha paz, tinha sossego, não ouvia barulho que não fosse o do mar. Nessa ilha, os cocos caíam de vez em quando, normalmente quando era hora de se alimentar. Enjoa depois de um tempo, mas é assim que as coisas funcionam na ilha: não chega a ser rotina, mas passa longe de variar. Nessa ilha que eu nasci, eu cresci e comecei a sentir falta de nadar. De visitar outras ilhas, ilhas que viessem acrescentar ao olhar. Muito, e às vezes exclusivamente, porque minha memória era vazia de lembranças que não fossem as da ilha que eu me acostumei a ficar.
Dessa ilha que eu cresci, eu saí. Eu saí de lá. Pra visitar outras ilhas, até que chegasse o momento em que não havia mais outra ilha pra visitar. Elas eram todas continentes, repletas de carros, de casas e de gente, aquelas outras gentes que a gente tem, gosta ou faz ter pra prosear, passar o tempo e matá-lo, quando fosse assim necessário. Dessa ilha que eu saí, volto sempre pra passar. Pois quando da ilha você resolve sair, não existe mais esse negócio de ficar. Eu não sou mais eu, não sou sozinho, não sou um prédio, muito menos aluguel. Eu não sou chão, nem quero botar cerca no meu matagal. Eu não tenho mais casa, mas moro. Eu não tenho mais corpo, mas vivo. E tenho sede, sono, fome, vida. Dessa ilha que eu passei, tudo levo, mas nada fica. Tudo é ilha. Nada é ilha.

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