inferno

Uma velha senhora me acompanha enquanto retiro o lixo da noite interior. Ela me olha com ar de reprovação, como se um crime eu tivesse cometido. Nesses sacos pretos, enganava-se, só constava vergonha mesmo.
A miséria das calçadas deste bairro combinava com a desfaçatez da combinação das roupas que preferi usar por prazer. Nas ruas, um ônibus passava a cada quinze minutos, suas janelas pintadas de pares de olhos perdidos olhando para gente como eu, despedida de seus sonhos.
Naquela manhã, enquanto a velha senhora me olhava com ares de reprovação e um ônibus passava a cada quinze minutos com janelas pintadas de pares de olhos perdidos olhando para gente como eu, resolvi seguir a direção do vento, que apontava, por sinal, para o leste de onde eu costumava observar. Sussurrava ao meu ouvido algo sobre um pátio repleto de almas perdidas tentando se encontrar. Não encontravam a saída, ao que parece, porque alguém roubara a placa e seus dizeres. E quem é que consegue nos dias de atualmente saber pra onde ir sem que o digam pra quê?  Uma voz parece querer me dizer alguma coisa a mais, assim como a velha senhora e seu olhar reprovador, os pares de olhos perdidos dos ônibus que passavam a cada 15 minutos e o vento sussurrador. Hoje, entretanto, só posso, só quero e consigo tirar o lixo acumulado da noite passada – antes que reclamem.
Já reclamam por vezes que já não me visto tão bem, que meus horários não são apropriados, que meu estilo é nocivo, que meus aparatos são desnecessários, que meus talentos são inúteis, meus motivos, atos de frescura; que meus gostos são excêntricos, que minha causa é perdida, que meu momento é passageiro, que crises são tempo gasto, que toda desgraça não é alheia, que meu sossego é bandido, que meu olhar é raivoso, que minha nobreza é ultrapassada, que meu andar é engraçado, que meu jeito não é certo, que meus sonhos estão escritos e talvez, com sorte, sejam apanhados em verdes campos onde eu possa escrever poesias em paz, sozinho, porque assim me é desejado. Não deve ser normal.
O santo que vivia aqui, hoje mora num saco preto de lixo, lá fora, e recebe olhares de reprovação de velhas senhoras, olhares perdidos de pares de olhos perdidos e chamados do vento do horizonte. Esse foi o crime. Ser uma aberração. Quando a chuva chegar, talvez o fogo apague. O diabo que sou, só é porque a vida toda você só me deu inferno.

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