justiça e misericórdia

Saíram pra passear, as duas, porque viviam sob o mesmo teto, a pele, cada uma controlando um trecho, como crianças que brigam pra sentar na janela do carro, como adultos que brigam pra sentar na janela do avião, como idosos que… só querem uma janela pra olhar.

Na ida, misericórdia dava o tom. Era, sem dúvida nenhuma, capaz de enxergar melhor em cores, capaz de se permitir mudar caminhos, descobrir o novo, afinal, na ida, quase tudo é novo mesmo; só as qualidades transitam, os sorrisos dão em cachos, a excitação é contínua, qualquer coisa fora do roteiro é facilmente perdoável. Era de misericórdia que falamos, oras. Um tipo simples, não a mais ambiciosa das garotas, nem a mais bonita, mas tinha lá o seu charme. De choro fácil, se identificava com contos, cantos, com todo tipo de encanto. Dava sempre o rosto a bater, porque foi assim que aprendeu e se viu crescer.

Na volta, justiça costumava brilhar. A mais voluptuosa das garotas era também a mais atraente. Impulsiva, danada, costumava ser o fogo que em misericórdia faltava. Não tinha lá muita paciência, mas também pudera. Cansada de ouvir que era lenta, resolveu não esperar por danos morais ou espirituais. Ia logo querendo briga e mostrando como é que se faz. Dava pra ser atriz, mas nunca prum filme de igreja, porque tinha dificuldade em perdoar. Era olho por olho, dente por dente; se você fez, agora vai ter que pagar.

Figuras fascinantes que cresceram dentro de uma história de guerra e paz.
Determinaram caminhos, entraram em conflitos, nunca, por nem um segundo, chegaram a concordar.
Aceitaram conviver porque tinha que ser assim. Acabaram por aceitar.
Mas nunca se entenderam e quem é que podia condenar?

Justiça não via a hora de se valer, misericórdia só quer saber de continuar.
Justiça era mais amarga, fato, porque sabia quando era hora de lutar.
Misericórdia, coitada, era pequena, frágil, mas era muito melhor em superar.
Uma pesava um monte, a outra, o suficiente pra não flutuar.
Misericórdia não gostava quando diziam que vivia nas nuvens.
Dizia que só sua força vinha de lá.
Justiça não gostava da comparação com a vingança.
Dizia que só quem sofreu injustiça poderia opinar.
Justiça queria que a misericórdia entendesse.
Misericórdia entendia.
Assim viveriam.
Até que escolhessem por uma ou outra.
Até que o teto caísse.
Até a história acabar.

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