limbo

Você não está lá, nem cá, não sabe se quer ou se não quer, se briga ou desiste, se viaja ou descansa, você não sabe se o buraco que caiu era o fundo ou se o fundo está mais pra baixo e se está, pelo menos por agora, numa espécie de lucro.
Você não sabe se casa, se separa, se tenta, se não tenta e nem mesmo sabe se vale a pena comprar uma bicicleta. O trânsito é ruim, mas te faz companhia. O transporte público é ruim, mas com ele você anda. Os dias não passam, mas tem sempre amanhã. Tem sempre o dia do salário, o jogo do time e o outro dia do salário.
O salário chega e não te faz menos miserável, mas faz disfarçar bem até chegar a hora de pensar no que fazer. Você não sabe se quer ir ou se quer ficar, se perdoa ou se esquece, ou se perdoa e esquece; ou se começa de novo, se continua pra ver onde dá, se toma banho ou come, até mesmo porque dormir parece uma terceira opção tão mais agradável.
Você não sabe se acorda e se faz algo com esse dia, ou se continua a dormir, porque isso também é algo e às vezes é isso que o dia merece. Ou que você acha que ele merece.
Você não sabe se anda mais pra não subir tanto ou se esforça pra cortar caminho, se aplica tudo o que ganha ou se diverte até não poder mais; você mal sabe que horas começa o seu dia, mas sabe perfeitamente a hora que ele termina e é por isso que você dorme, porque não quer acordar e começar de novo um dia que acabou de acabar.
Eles parecem sempre o mesmo, a mesma vitrola, discos que você canta de trás pra frente. Parece um sonho, mas a real é que é real e não é um sonho porcaria nenhuma. E você não sabe mais se deseja que seja um sonho, porque se os sonhos são assim, eles não são nadinha como aqueles que cresceu achando que sonhava.
Você não sabe nem mesmo se o seu estado define euforia, alegria, tristeza, reflexão ou depressão. Tudo parece uma coisa só, você não parece encontrar um caminho, mas também não parece perdido.
É só um estado de inoperância que você precisa lutar pra sair. Ou aceitar e ficar. Aqui não está claro, mas não se vê a escuridão. Bem-vindo ao limbo.

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