linhas finas

Assina aqui embaixo, nessas linhas imaginárias que criaram pra gente brincar de falar sério.
Faz crer nos asteriscos, estrelas no papel onde a gente vive escondendo significados.
Pense em pausas, pautas reticentes para um mistério que paira no ar.
Aproveite o momento pra não dizer o que nasceu pra ser dito. A não ser, claro, que isso possa ser escrito – nessas linhas tortas que alguém desenhou pra todos nós.
Dois pontos depois você estará sozinho, perdido em rodeios, com um contrato na mão.
É assim que a sociedade caminha, burocrática, mediocremente portentosa em saber, deliciosamente ordinária ao pensar. É por isso que inventaram cadernos sem linha, para que aos que não entendem, pudesse se desenhar.

Assina aqui embaixo, nessas linhas manchadas de tinta de caneta velha, recém-saída da gaveta cheia de coisas velhas que você usa pra guardar coisas que não precisa mais. A não ser que elas possam ser úteis para colocar no papel o que esqueceu de contar.
Faz crer nessas cláusulas, versículos tirados de um livro cheio das leis.
Pense em pontos, pecados que possamos transformar em assuntos para brigas posteriores.
Aproveite o momento pra esquecer do que foi dito. A não ser, claro, que isso possa ser escrito – nessas linhas opacas que alguém desgastou de tanto apagar, depois de muito usar.
Dois pontos depois você estará comigo, discutindo meios de ir embora, com um contrato na mão. É assim que a sociedade caminha, falsamente prática, objetiva em complicar o objetivo, com poucas metas e muitos tiros pra dar. É por isso que jogaram esse caderno fora, não tinha mais um espaço sequer pra se rabiscar.

Assina aqui embaixo, mas antes leia as linhas finas que eu criei pra gente se enganar.
Nelas se queima todo o trabalho, todo dito ainda não feito, todo acordado.
É aqui que se encontram as brechas pra anular o contrato que você acabou de assinar.

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