lógica

Controlava o tempo, do seu jeito, ao seu tempo.
Distribuía as cartas do jogo, ditava as regras da mesa, as modificava se assim fosse necessário.
Sabia as letras de cor, o que dizer, mesmo sem saber muito bem como cantar.
Se irritava com o alto grau de previsibilidade das pessoas, mas tolerava porque isso o dava controle.
Gostava de números, mas só porque as exatas tinham muito pouco de humanos.
Não acreditava em fé, em espiritualidade, nem em religião.
Achava que veio do macaco ou de uma explosão.
Não acreditava em mudanças drásticas, as práticas, mas era fã confesso de sua teoria.
Era orador, mas dispensava uma boa oração.
Entoava prosa, mas fazia questão de passar longe da poesia.
Sonhava em ser contador, bancário, analista, político ou economista.
Nunca entendeu Shakespeare, mas achava chique – já que era inglês.
Andava pra cima e pra baixo com um livro na mão, mas nunca foi visto com um caderno.
Devorava o pensamento alheio, mas em grande parte do tempo desprezava os seus.
Não ficava tranquilo enquanto não se dava o nome aos bois.
Era o fã número um dos rótulos e embalagens.
Comprava o jornal na banca e o frango na padaria.
Adorava meia dúzia de lugares, três restaurantes e aquele museu.
Conseguiu sinteticamente colocar a vida toda num papel.
Demorou um tempo pra decorar.
Quando decorou, amassou o papel. Jogou no lixo reciclável.
Nunca entendia como podiam complicar tanto a vida.
Era tudo tão prático. Tão lógico quanto dois e dois são quatro.
Tão sem… vida?

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