magia

Existe magia por detrás daqueles campos
Trabalhadores por ali voltam pra casa, enxadas em mãos, cabeças ao chão
Mas é no brilho da lua que encontram o rumo
É no canto do pássaro noturno que diz a história dar azar
O homem calejado, entretanto, não tem mais tempo para histórias
Lendas que nada contribuem para sua angústia apaziguar

Existe magia por debaixo dessas águas
Azuis, cristalinas ao dia, negras, pretensiosamente negras pela noite
Mas é no leve navegar de seus barcos que pescadores deixam de notar
Preocupados em alimentar seus destinos, um reflexo despercebido, pois desapercebidos estavam
Não existe monstro maior nesse lago do que aquele que não enxerga
Não há sequer tempo para não querer logo em terra chegar

Existe magia do outro lado do muro
E mesmo que os que caminhem por ali apressados não percebam
Há sempre um cego que acaba por escutar os gritos daqueles que ouvem muito pouco
Caminhando lentamente num trilho de hortênsias de almas límpidas
Lá andam os homens perdidos, indissolúveis em escolher outra alternativa
Assim vivem, em outra realidade, pois tudo deixaram para trás

Existe magia em cada toque sentido
No tilintar dos brindes que armaram a favor de nós
Nas roupas deixadas pelo corredor
Em todo sonho recém-acordado
Até que a realidade o suprima com uma dose cavalar de cura
E volte a ser um homem indigno de asas

Existe magia, sim, e não neguem a si um pouco de fantasia
É assim que se encontra a morte
Não fria e cínica como se imagina
Mas doce e amarga ao mesmo tempo, das amigas que fazemos em balcões de bar
Magia que aparece quando, abraçados, passamos juntos pela ponte
Subimos em seu mastro e desejamos cair longe e mais forte
Porque existe magia do lado lá

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