não é uma opção

Se perder é um medo presente em boa parte dos adultos que conheço. Clamam com ajuda gestual que o tempo não é um aliado, ma che cazzo, mas pra um jovem de idade como eu ele passa longe de ser um inimigo. Não faz os três porquinhos, mas nunca quis ser o lobo mau. Não me interessa toda essa pressa. Não saber para onde ir, pegar a rua errada, ter que pedir informação, também não é tão ruim assim quanto fazem parecer. Claro, pode-se estar atrasado e nessa hora o tempo não se comporta como um amigo do peito, mas xingar o mundo, olhar para o pulso e fuzilar o relógio esperando um milagre nunca funcionou. Talvez sirva apenas para nos levar mais cedo para longe daqui. Em casos como esses, ateu ou não, melhor mesmo é pedir aos céus. Ou ligar pra mamãe. Eu sempre ligo pra mamãe, vai por mim, costuma fazer bem.

Desistir de uma carreira e mudar de vida já pode ter sido um erro no passado, mas hoje é visto com uma certa simpatia, até mesmo com olhares de admiração. Acostumamo-nos a acordar e ler muito sobre isso, e pensar muito sobre isso ao dormir torna-se parte de um ritual – quase que uma preparação. Discute-se muito, discursa-se muito, mas ainda faz-se muito pouco quanto a isso, não? Muito treino pra desmarcar o jogo, sabe como é, nunca dá. Não falo dos nômades digitais, esses desbravadores, porque não acredito no discurso dos nômades digitais. Tenho a sensação de que quem faz mesmo, pouco fala ou não tenta vender isso como estilo de vida ou perspectiva de felicidade. Transformar essa fórmula num livro de autoajuda pode, sim, ajudar. Mas é autoajuda para quem escreve, vejam só, quase nunca para quem lê. Precisa-se de muita empatia para fazer a transposição de ideias e achar que elas funcionam só passando a limpo, como costumávamos fazer num dever de casa qualquer. Ainda estou passando a limpo o meu.

A gente sonha com essa liberdade lendo muito, se informando até demais. Falo por mim. Dava para escrever uma tese, sem muito esforço. Dava para ensinar, com algum prazer. Talvez não dê para ganhar muito dinheiro, mas ensinar nunca foi sinônimo de dinheiro, infelizmente, pelo menos por aqui. Não é um problema da leitura em si, quem dera os problemas fossem simples assim, mas acho bonito reconhecer cronópios de alma e não os fabricados na convenção mundial de felicidade das redes sociais. No fundo, esses são famas na essência, sentenciosos, cheios de regras e ordem, quando tudo o que alguém como eu precisaria é de mais caos, desordem e pouco controle – para perder os vícios que colecionei quando garotinho obcecado em completar álbuns para não ter disposição em abri-los depois. Perder os vícios ou até mesmo agravá-los, e olha que o último pode ser preferível, conhecendo a gravidade da situação menos grave das que já ouvi falar.

Não chega a ser uma doença, mas, se for, essa doença deveria ser eleita a doença do ano pelo revista doença do ano. Menos grave que um resfriado, não se compra sua cura em farmácias, mas nada que uma boa noite de cachaça e sono e sexo, um dos três, dois dos três ou três de três, não faça passar. Só que volta. É uma enxaqueca intelectual. Nesse caso, se agravamos os problemas, quem sabe não morremos de vez e renascemos? Nessa vida nova que, convenhamos, nunca é totalmente nova, a não ser que você ganhe uma nova memória de presente de Natal. Eu só ganho meias mesmo. Mas tudo bem, eu adoro meias. Uso-as nessa busca universal e incessante da felicidade e essa busca é tão bonita e é poesia tão pronta, que faz a gente querer… escrever sobre ela? Estranho. Acho que o dia que eu for feliz mesmo, paro de escrever.

Escrever dói muito, é desgastante e gratificante na mesma medida. Talvez seja meu sol em Peixes ou minha lua em Escorpião. Talvez eu só esteja exagerando mesmo. É tanta água, tanto drama, tanta intensidade, que escrever tem efeito parecido a segurar a bexiga cheia por horas e soltar tudo numa privada de papel. É a desculpa perfeita para escrever merda e sair ileso com isso. Quem vai te julgar? O mundo, talvez. Se for só o mundo, acho que estamos no lucro. E entre cronópios e famas, um ou outro, o medo mesmo é de ser esperanza, ordinário e comum, espécime medíocre, o meio termo, equilibrado e/ou desinteressante, não importa, o seu ponto de vista pouco importa e o dele também talvez pouco devesse importar para você. Mesmo que ele, o ponto de vista, não faça nenhum sentido e começo a torcer para que comecem cada vez mais a não fazer, a melhor opção talvez ainda seja continuar sendo você. E mudar esse você, se possível, mas continuar sendo você, quando outro você estiver em total pouco controle de si. Faz sentido? Espero que não.

Utópico, claro ou talvez, não sei bem. Viver na conveniência é fácil demais para mim. Assim, quando cronópios, podemos continuar voando em sóis de dias sem chuva, assim, quando famas, podemos pousar sem esforço em camas de molas, e assim, nos anulando sempre, tentando o melhor dos dois mundos, achar conforto no mato e aventura na cidade, ficamos sedentários de personalidade. Egoístas, mimados, vendedores burocráticos. Vivendo mais um dia, esperando pelo outro, recebendo ordens de um, sendo deixados de lado por outros mais interessantes, nos fazendo duvidar de que sejamos mesmo assim tão especiais como dizia a capa da revista que comprei com o troco do café e nos conformando de que talvez não seja tão ruim assim passar batido na multidão. Talvez não seja mesmo.

Ninguém pode nos julgar caso a decisão seja seguir assim. Viver a minha vida de merda com essa autoajuda, suaajuda, deleajuda, não quero mesmo. Faço birra. Tem quem precise, mas visto a carapuça da combinação sujeito + adjetivo que você preferir e bato o pé, porque viver uma vida de merda, e uma vida de merda para mim pode muito bem ser uma vida de rei para você, e vice-versa, é uma falha grave demais. Todo caminho torna-se opção, então, desde que um desses caminhos não seja o de falhar como ser humano. Isso não posso aceitar. Falhar como ser humano é uma vergonha. Falhar como ser humano não é uma opção e viver numa vida de merda não é uma opção. Nunca pode ser uma opção.

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