o crime do espelho da casa sem vida

O espelho dessa casa não funcionava como deveria funcionar. Assim dizia o manual de instruções: que deveria refletir o que em sua frente aparecesse. Mas ali nunca esteve presente, parecia sempre vazio. Batia à sua porta e uma espécie de eco invertido acontecia. O som corria pra dentro, quase como se uma laranja sufocasse as cordas vocais de quem ali dentro morasse. Achei que estava ficando louco, mas era verdade, juro, os espelhos dessa casa não muito me serviam. Eram como vidros que não quebravam. Eram paredes em uma textura que me impedia de chamá-los de parede. Camuflados no resto do concreto dessa casa, os espelhos daqui pareciam ter vida. Irônico. Qualquer um diria que estavam mortos. Mas se morreram, quem teria matado seus reflexos? Deve ter sido um monstro ou muitos monstros, assim, no plural e em abundância. De tanto encararem, de tanto maldizerem a vida, a vida dos outros, dos passados e futuros que por ali passariam, acabaram por assassinar a função prática do espelho. Era tão inútil agora quanto quem a ele se dirigia esperando milagres, para só enxergar sua realidade. Gosto, entretanto, de pensar que se cansou, o espelho, e foi viajar. Assim, não me sinto mal de ter feito parte de tal crime, o do reflexo que não funcionava, o da imagem desaparecida, o crime do espelho da casa sem vida.

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