os dois joão

Eram quase 18 horas daquele dia quando a mãe, sem unhas de tanto roer, apareceu na delegacia com uma foto do filho no celular, “dotô, pofavô, ele sumiu”. O delegado, que de doutor nada tinha, perguntou se isso já acontecera outras vezes, ao passo que a mulher afirmou que nunca tinha acontecido, ele sempre chegava da escola, almoçava, jogava no computador, “tudo o que um garoto de 9 anos sempre faz, dotô”. Delegado Mathias, que de doutor nada tinha, embora tivesse prestado vestibular para Medicina e falhado miseravelmente nisso, concordou com a cabeça e fez votos, votos não, promessas, de que João, esse era o seu nome, seria encontrado ainda naquele dia, que começava a escurecer. Naquela mesma manhã, por volta das 6 quase 7 horas, João pegou o lanche, não penteou o cabelo e decidiu que caminharia até a escola que ficava não muito distante, a 2 quadras dali, “eram 3”, corrigiu o delegado. Uma criança de 9 anos não deveria andar sozinha até a escola, pensou o delegado, mas não fez questão de deixar claro que seu filho, de 8, ia para a escola de van e, se tivesse o outro João ido de van, as chances de encontrá-lo desaparecido seriam bem menores. João, também era o nome do seu pequeno, coincidência. Faria 9 em fevereiro, uma graça, já chutava como o pai, embora tivesse o nariz arrebitado da mãe. Voltando ao João alheio, perguntou novamente se a mãe tinha ligado na escola, na casa dos coleguinhas de sala ou procurado direito, porque como ele bem sabia, crianças, especialmente meninos, gostavam dessa brincadeira de se esconder – seu João tinha passado uma tarde dentro da máquina de lavar porque achou que o banho de chuveiro não era aventureiro o bastante. Não nessas palavras, claro. Mas era isso que ele entendia de “esse banho é muito chato” e sentiu uma ponta de orgulho porque o filho seria provavelmente um atleta ou um desses caras que saíam em revistas de aventura, dessas que o delegado lia no banheiro da delegacia. Quando criança, sonhava em ser alpinista. Aos 12, caiu de uma escada, quebrou o braço e decidiu que era mais do chão. Aos 20, desistira de ser médico e decidiu ser policial, uma espécie de aventureiro mais, assim dizia, porque assim optara, “pé no chão”. Nunca chegou a atuar em campo, caçando ladrões pela cidade naqueles luxuosos jipes blindados, mas se acostumou ao trabalho prosaico, mas importante, o chefe sempre o lembrava, que fazia no escritório. Não havia nada de errado em gostar de trabalhar com papéis e, sempre que pensava nisso, estufava o peito como se afirmasse pra si que ele, o garotinho prodígio do papai, realizou-se na vida, agora era casado e pai de João, como já se sabe, João na verdade faria 9 anos em março. Mathias nunca fora bom com datas. Mathias era bom com papéis, mas já se sabe isso também. Só não sabíamos por onde andava o outro João, o de 9, filho da mãe desesperada que agora andava impaciente enquanto o delegado fazia ligações. “Seu filho, João, está em minha casa, minha senhora, ajudando meu João com o dever de casa”. Mais tranquila, aquela senhora sairia às pressas da delegacia, não sem antes perguntar o endereço da residência do delegado. “Moro no 26, no mesmo prédio da senhora, minha senhora, achei que se lembraria de mim.” A mulher agradeceu a informação, a primeira metade dela, ignorando completamente a segunda. O delegado acenou. A senhora, mãe de João, 9, não chegou a perceber. O delegado, pai de João, 8, caminhou até a mesa mais próxima, folheou uma revista de aventura e parou numa foto especialmente vibrante que mostrava um alpinista de braços fortes e tatuados, semblante vitorioso. Mathias, que era mesmo mais do chão, desabou.

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