amigos da encruzilhada

Os quebradores de almas
em nada se assemelham aos encantadores de sonhos.

São como saqueadores
esperando por uma vulnerabilidade qualquer
algo que tire de você o que consideram que você não mereceu.
Ariscos no gatilhos
são como cowboys em duelos no faroeste
esperando a hora de atirar
enquanto a cidade assiste um nobre cavaleiro se consagrar
e o outro partir pra uma outra, qualquer outra.

Os encantadores de sonhos
tampouco são parecidos com os quebradores de alma.

Agem à luz do dia
dando corda para que se vá atrás do coelho branco
oferecendo também um banquinho pra se enforcar.
De gravatas, sapatos de bico fino
e sorrisos de meia lua a contragosto
discursam das oito às cinco
por vezes seis, sete, oito
vendedores natos, assistindo sua rendição pelo desgosto.

Os quebradores de alma são de correr.
Apreciam a dor rápida
o tiro, um atropelamento
a pressa, o grito.
Você se vai e nem vê.

Os encantadores de sonhos são de esperar.
Cultuam a dor lenta
a cama do hospital, a mágoa e a depressão.
Você morre aos poucos
tocando a vida, no silêncio
meio assim sem entender.

carta #1

É Natal aqui na casa de praia. Sei que ninguém perguntou, mas achei que devia avisar para que os presentes não atrasassem mais. Ainda não ganhei aquela prancha de surf, aliás, nem mesmo tive as aulas que prometi que ia tomar. Me matriculei, mas no dia choveu. No dia seguinte fez sol, mas daí já não queria mais.

Quando for enviar o meu presente, não esqueça de enviar um cartão também. Adoro cartões. Só escreva com letra legível, por favor. Não sou bom em adivinhar garranchos e nem tenho a intenção de ser. Quando for escrever o cartão, lembre-se de escrever com carinho. Ando carente de afeto que não seja o do sol desde que me mudei pra cá. Se puder me desejar felicidades e dizer que está morrendo de saudades, fique à vontade. E venha me visitar, se assim preferir.

Quando vier me visitar, traga roupa de banho, protetor, óculos de sol e muita paciência. Não há muito o que fazer por aqui. De vez em quando uns pássaros aparecem e fazem uma performance bastante particular. É época de estiagem.
Seremos poucos, pois: dona praia, seu mar, nós dois e um relógio que custa a trabalhar. É o que posso oferecer, é tudo que pretendo, a partir de agora, poder dar.

perdido na tradução

Eu me perdi na tradução
Na imensidão de possibilidades
No meio da escuridão

Eu me perdi cavando fundo
Pra debaixo dessa terra
Até o outro lado mundo

Eu me perdi em labirintos chineses
Gôndolas douradas
Dragões cuspindo fogo
Lagos profundos

Eu me perdi tentando falar
Sem compreender
O que me tentavam dizer

Eu me perdi errando a conta
Calculando mal as medidas
A distância dos meus sonhos
O peso das minhas feridas

Eu me perdi sem poder culpar
O violinista
O vendedor de latas
O confuso taxista
A chuva imunda
O caos da cidade
A minha vida.

não é uma opção

Se perder é um medo presente em boa parte dos adultos que conheço. Clamam com ajuda gestual que o tempo não é um aliado, ma che cazzo, mas pra um jovem de idade como eu ele passa longe de ser um inimigo. Não faz os três porquinhos, mas nunca quis ser o lobo mau. Não me interessa toda essa pressa. Não saber para onde ir, pegar a rua errada, ter que pedir informação, também não é tão ruim assim quanto fazem parecer. Claro, pode-se estar atrasado e nessa hora o tempo não se comporta como um amigo do peito, mas xingar o mundo, olhar para o pulso e fuzilar o relógio esperando um milagre nunca funcionou. Talvez sirva apenas para nos levar mais cedo para longe daqui. Em casos como esses, ateu ou não, melhor mesmo é pedir aos céus. Ou ligar pra mamãe. Eu sempre ligo pra mamãe, vai por mim, costuma fazer bem.

Desistir de uma carreira e mudar de vida já pode ter sido um erro no passado, mas hoje é visto com uma certa simpatia, até mesmo com olhares de admiração. Acostumamo-nos a acordar e ler muito sobre isso, e pensar muito sobre isso ao dormir torna-se parte de um ritual – quase que uma preparação. Discute-se muito, discursa-se muito, mas ainda faz-se muito pouco quanto a isso, não? Muito treino pra desmarcar o jogo, sabe como é, nunca dá. Não falo dos nômades digitais, esses desbravadores, porque não acredito no discurso dos nômades digitais. Tenho a sensação de que quem faz mesmo, pouco fala ou não tenta vender isso como estilo de vida ou perspectiva de felicidade. Transformar essa fórmula num livro de autoajuda pode, sim, ajudar. Mas é autoajuda para quem escreve, vejam só, quase nunca para quem lê. Precisa-se de muita empatia para fazer a transposição de ideias e achar que elas funcionam só passando a limpo, como costumávamos fazer num dever de casa qualquer. Ainda estou passando a limpo o meu.

A gente sonha com essa liberdade lendo muito, se informando até demais. Falo por mim. Dava para escrever uma tese, sem muito esforço. Dava para ensinar, com algum prazer. Talvez não dê para ganhar muito dinheiro, mas ensinar nunca foi sinônimo de dinheiro, infelizmente, pelo menos por aqui. Não é um problema da leitura em si, quem dera os problemas fossem simples assim, mas acho bonito reconhecer cronópios de alma e não os fabricados na convenção mundial de felicidade das redes sociais. No fundo, esses são famas na essência, sentenciosos, cheios de regras e ordem, quando tudo o que alguém como eu precisaria é de mais caos, desordem e pouco controle – para perder os vícios que colecionei quando garotinho obcecado em completar álbuns para não ter disposição em abri-los depois. Perder os vícios ou até mesmo agravá-los, e olha que o último pode ser preferível, conhecendo a gravidade da situação menos grave das que já ouvi falar.

Não chega a ser uma doença, mas, se for, essa doença deveria ser eleita a doença do ano pelo revista doença do ano. Menos grave que um resfriado, não se compra sua cura em farmácias, mas nada que uma boa noite de cachaça e sono e sexo, um dos três, dois dos três ou três de três, não faça passar. Só que volta. É uma enxaqueca intelectual. Nesse caso, se agravamos os problemas, quem sabe não morremos de vez e renascemos? Nessa vida nova que, convenhamos, nunca é totalmente nova, a não ser que você ganhe uma nova memória de presente de Natal. Eu só ganho meias mesmo. Mas tudo bem, eu adoro meias. Uso-as nessa busca universal e incessante da felicidade e essa busca é tão bonita e é poesia tão pronta, que faz a gente querer… escrever sobre ela? Estranho. Acho que o dia que eu for feliz mesmo, paro de escrever.

Escrever dói muito, é desgastante e gratificante na mesma medida. Talvez seja meu sol em Peixes ou minha lua em Escorpião. Talvez eu só esteja exagerando mesmo. É tanta água, tanto drama, tanta intensidade, que escrever tem efeito parecido a segurar a bexiga cheia por horas e soltar tudo numa privada de papel. É a desculpa perfeita para escrever merda e sair ileso com isso. Quem vai te julgar? O mundo, talvez. Se for só o mundo, acho que estamos no lucro. E entre cronópios e famas, um ou outro, o medo mesmo é de ser esperanza, ordinário e comum, espécime medíocre, o meio termo, equilibrado e/ou desinteressante, não importa, o seu ponto de vista pouco importa e o dele também talvez pouco devesse importar para você. Mesmo que ele, o ponto de vista, não faça nenhum sentido e começo a torcer para que comecem cada vez mais a não fazer, a melhor opção talvez ainda seja continuar sendo você. E mudar esse você, se possível, mas continuar sendo você, quando outro você estiver em total pouco controle de si. Faz sentido? Espero que não.

Utópico, claro ou talvez, não sei bem. Viver na conveniência é fácil demais para mim. Assim, quando cronópios, podemos continuar voando em sóis de dias sem chuva, assim, quando famas, podemos pousar sem esforço em camas de molas, e assim, nos anulando sempre, tentando o melhor dos dois mundos, achar conforto no mato e aventura na cidade, ficamos sedentários de personalidade. Egoístas, mimados, vendedores burocráticos. Vivendo mais um dia, esperando pelo outro, recebendo ordens de um, sendo deixados de lado por outros mais interessantes, nos fazendo duvidar de que sejamos mesmo assim tão especiais como dizia a capa da revista que comprei com o troco do café e nos conformando de que talvez não seja tão ruim assim passar batido na multidão. Talvez não seja mesmo.

Ninguém pode nos julgar caso a decisão seja seguir assim. Viver a minha vida de merda com essa autoajuda, suaajuda, deleajuda, não quero mesmo. Faço birra. Tem quem precise, mas visto a carapuça da combinação sujeito + adjetivo que você preferir e bato o pé, porque viver uma vida de merda, e uma vida de merda para mim pode muito bem ser uma vida de rei para você, e vice-versa, é uma falha grave demais. Todo caminho torna-se opção, então, desde que um desses caminhos não seja o de falhar como ser humano. Isso não posso aceitar. Falhar como ser humano é uma vergonha. Falhar como ser humano não é uma opção e viver numa vida de merda não é uma opção. Nunca pode ser uma opção.

assobio

Fez-se um estouro
joelhos desabam
pés não acreditam no que aconteceu.
Foi tão de repente
tão consciente
e eu aqui sem saber.
Tirou a arma do bolso
quanto desgosto
apontou para o buraco
que fica bem aqui, vê?
O vazio que ficou
chama atenção dos estranhos
conhecidos não sabem
não entendem o que fazer.
Nenhuma receita
fórmula secreta
solução perfeita
nem superstição arrumou
o buraco ficou
acostumou.
Agora pássaros voam por ele
rasantes
como janela aberta
porta sem tranca
casa sem teto
onde se observa as estrelas no céu.
A parte boa
a melhor delas
acontece quando o vento
resolve
assim
passar pelo buraco
passar por mim
fazendo um barulho sereno.
É quase um assobio
chamado de que a vida segue
se a gente ouvir o que vem de fora
e passa pela gente
e segue
passageiro
cantarolante
assobiando
como o vento.

 

pedaço de cosmos

Olho pro céu e me vejo poeira
Me vejo na lua
Na combinação geométrica das estrelas
Me vejo gravitando entre os planetas
Num filme premiado
Astronauta de sonhos fabricados
Me vejo foguete
Lançado ao nada
Tudo a perder
Me vejo cadente
Caindo em potência
Me vejo na cruz
Diante de uma constelação
Me vejo partícula
Infinidade de significados
Insignificância do meu infinito
Me vejo nas nuvens
Invisíveis diante da imensidão
Me vejo universalmente ligado
Num cosmos despedaçado
Que explodiu no céu
Vivendo em terra
Me vejo acordado
E olhando pro céu… vejo um pedaço de mim.

parede de flores

Dormindo no alto de uma montanha, recostada à beira de um precipício, um casarão excluído de seu vilarejo recepcionava o sol primeiro. Ele o iluminava com o afeto de uma mãe que não via a filha por dias, e ajudava-a a se vestir imponentemente, mesmo que fosse apenas para o café.

Toda manhã suas paredes cor-de-pele, desnudas, manchadas pelas guerras de seus antepassados e pelas crianças que destruíam-nas jogando bola, pedras ou o que for, ganhavam uma camada de flores que crescia austeramente em movimentos circulares, como uma bailarina que acabara de fazer seu primeiro giro, entrelaçando as pernas e curvando um dos braços como numa saudação.

Preenchia as feridas aparentes, tijolos adoecidos, fiação que há muito não se dispunha a fiar. Contornava as janelas de modo a deixar que seus vidros quebrados ainda recebessem a luz, costurava as entranhas do porão de forma a deixá-lo menos sombrio, um cenário imaginado por um casal de apaixonados daquela Paris apaixonada dos tempos de ouro do cinema.

Ao chegar ao insosso telhado, imitava uma senhora que acabara de sentar para bordar um tapete de renda. Mãos ágeis, apesar da vista cansada, construíam formas geométricas em que não se identificava um padrão – equiláteras, escalenas e isóscelenas -, e cabe aqui acreditar que essas mãos não enxergavam o que faziam, mas sabiam exatamente o que deveriam fazer e como fazer.

Ao revestir a chaminé num tom muito parecido com o visto nos céus daquele outono, impulsionou suas raízes, flexionou-as e saltou daquele alto, dúzias de raízes de flores caindo ao redor de suas paredes, como numa cortina havaiana, como um véu que noivas usavam nos votos de união com seus noivos na igreja perto do hotel.

Eram tão belas que os transeuntes que ali passavam nunca poderiam deixar de notar. Azuis pálidos, verdes petróleos, vermelhos do mar, brancos de gelo, rosas abóboras, amarelo ouro, amarelo prata, bronze puro, cobres, cinzas, chumbos, roxos berrantes, cerejas cintilantes, laranjas sem casca, jabuticabas negras, lilases híbridas em verde, terra e musgo. O vestido mais belo, para aquela casa tão velha – que agora voltara a ser menina, na primeira aula de ballet. Mamãe fazendo tchau pela janela, lá fora o sol a raiar. Allongé, gran plié, jeté passé.  

me deixa

Me deixa chegar junto
Descobrir quais são seus discos
Seus medos
Seus riscos

Me deixa te pegar no colo
Te proteger da queda
Descobrir seus segredos
Fazer deles meus enredos

Me deixa olhar em seus olhos
Interpretar seus sonhos
Ler seus lábios
Decifrá-los junto aos meus

Me deixa descobrir sua mania
Seu jeito de brincar falando sério
Seus motivos
Suas desculpas
Suas dores
Minhas culpas

Me deixa tentar te levar
Me levando
Vamos caminhando

Se você cansar
Te carrego
Se você cair
Te pego
Se você se for
Te quero
Se você se for
Te quero
Se você se for
Eu nego
Se você se for
Me deixa

 

apagão

No meio de um bosque, ainda distante, um clarão.
Será que esqueceram de apagar a luz?

Me desvencilho das carnívoras, das trepadeiras e dos espinhos.
Quanto tempo falta pra chegar?

A luz que se agigantava nos clarões, se apequenava nas partes mais densas.
Era úmido, quente e acolhedor.
O que será que plantaram por lá?

Quebra um galho, sobe um morro, chega mais.
É tão real. Bonita. Assustador.

Brilhante como uma pedra preciosa escandalosa.
Que grita a sua exuberância, cor e vivacidade naturais.

Parece natural, mas ao mesmo tempo não parece ter vindo da natureza.
Faz um barulho silencioso, é como uma vibração.
Será que posso chegar perto?
Mas já estou perto mesmo sem perceber.

Gotas vermelhas começam a aparecer no chão.
Onde chove sangue, senhor?
Não é chuva, não.

Sou eu, queimando com o calor do espécime mais fascinante que já conheci.
Ele queima a tudo.
Queima meus horizontes e me faz mal.

Manchas verdes, agora roxas, aparecem em minha pele.
Não consigo me afastar.
Não consigo deixar de olhar.

Caminho quase sem sentir os pés.
Minha respiração é ofegante, mas estranhamente silenciosa.
A temperatura deve passar dos 50 graus.

Seria isso uma pedra rara? Uma lâmpada de alta voltagem?
Um vaga-lume como jamais vimos nos programas de tevê?

Caminho com o que sobrou de mim.
Chego até o que parece ser um poço.
A luz quase me cega.
Tanto faz.

Não tenho forças pra descer.
Muito menos força pra levantar.

Ali por perto, antes de fazer uma última oração, noto companhia.
São ossos de outros seres curiosos que acabaram ficando por lá.

Eram brancos, gélidos, mas bastante iluminados.
Diria até que eram ossos felizes, se isso faz algum sentido.

Um deles sorri pra mim.
Como assim? O osso vive? E sorri?

Os ossos estão mais vivos do que nunca, acredite em mim.
Não se movem, não são mais carne, provavelmente não se lembram do que era pele.

A luz que chamava aos homens, aos homens destruía completamente.
Já lá, desprovidos de força, acabavam por definhar.
Mas não apagavam completamente.
Era a luz.

Fiz um desejo a ela.
Perguntei se podia me matar.
Já doía demais não poder mais viver.
Que ao menos me desse o direito de partir.

Nunca obtive resposta.
Outros se juntariam a mim no decorrer dos dias.
E dos meses.
E dos anos.

cactos

Todas as coisas que sonhei foram empacotadas em caixas velhas, esquecidas em lugares passados ou simplesmente atiradas de um carro alugado em alta velocidade no meio de um deserto.
Se transformaram em cactos e agora alimentam a poeira, passam o tempo vendo algum transeunte passar. Não entendem sua pressa, mas quando param para olhar, usam espinhos como presas – grossos cascos que protegem o que veio para machucar.
Não necessitam de água, pelo menos não mais para sobreviver. Ainda são sonhos, só se encontram velhos, mal cuidados, ainda não prontos para um novo lar, um homem responsável por si.
Quando recuperados, renascem de outra combinação essencial que não H, O e H. Há quem se permita chamar isso de fé. Confesso que não sei nomear algo que se quebra de repente por encanto, nos desencontros que a vida rotineiramente programa sem nos convidar.