o crime do espelho da casa sem vida

O espelho dessa casa não funcionava como deveria funcionar. Assim dizia o manual de instruções: que deveria refletir o que em sua frente aparecesse. Mas ali nunca esteve presente, parecia sempre vazio. Batia à sua porta e uma espécie de eco invertido acontecia. O som corria pra dentro, quase como se uma laranja sufocasse as cordas vocais de quem ali dentro morasse. Achei que estava ficando louco, mas era verdade, juro, os espelhos dessa casa não muito me serviam. Eram como vidros que não quebravam. Eram paredes em uma textura que me impedia de chamá-los de parede. Camuflados no resto do concreto dessa casa, os espelhos daqui pareciam ter vida. Irônico. Qualquer um diria que estavam mortos. Mas se morreram, quem teria matado seus reflexos? Deve ter sido um monstro ou muitos monstros, assim, no plural e em abundância. De tanto encararem, de tanto maldizerem a vida, a vida dos outros, dos passados e futuros que por ali passariam, acabaram por assassinar a função prática do espelho. Era tão inútil agora quanto quem a ele se dirigia esperando milagres, para só enxergar sua realidade. Gosto, entretanto, de pensar que se cansou, o espelho, e foi viajar. Assim, não me sinto mal de ter feito parte de tal crime, o do reflexo que não funcionava, o da imagem desaparecida, o crime do espelho da casa sem vida.

magia

Existe magia por detrás daqueles campos
Trabalhadores por ali voltam pra casa, enxadas em mãos, cabeças ao chão
Mas é no brilho da lua que encontram o rumo
É no canto do pássaro noturno que diz a história dar azar
O homem calejado, entretanto, não tem mais tempo para histórias
Lendas que nada contribuem para sua angústia apaziguar

Existe magia por debaixo dessas águas
Azuis, cristalinas ao dia, negras, pretensiosamente negras pela noite
Mas é no leve navegar de seus barcos que pescadores deixam de notar
Preocupados em alimentar seus destinos, um reflexo despercebido, pois desapercebidos estavam
Não existe monstro maior nesse lago do que aquele que não enxerga
Não há sequer tempo para não querer logo em terra chegar

Existe magia do outro lado do muro
E mesmo que os que caminhem por ali apressados não percebam
Há sempre um cego que acaba por escutar os gritos daqueles que ouvem muito pouco
Caminhando lentamente num trilho de hortênsias de almas límpidas
Lá andam os homens perdidos, indissolúveis em escolher outra alternativa
Assim vivem, em outra realidade, pois tudo deixaram para trás

Existe magia em cada toque sentido
No tilintar dos brindes que armaram a favor de nós
Nas roupas deixadas pelo corredor
Em todo sonho recém-acordado
Até que a realidade o suprima com uma dose cavalar de cura
E volte a ser um homem indigno de asas

Existe magia, sim, e não neguem a si um pouco de fantasia
É assim que se encontra a morte
Não fria e cínica como se imagina
Mas doce e amarga ao mesmo tempo, das amigas que fazemos em balcões de bar
Magia que aparece quando, abraçados, passamos juntos pela ponte
Subimos em seu mastro e desejamos cair longe e mais forte
Porque existe magia do lado lá

lógica

Controlava o tempo, do seu jeito, ao seu tempo.
Distribuía as cartas do jogo, ditava as regras da mesa, as modificava se assim fosse necessário.
Sabia as letras de cor, o que dizer, mesmo sem saber muito bem como cantar.
Se irritava com o alto grau de previsibilidade das pessoas, mas tolerava porque isso o dava controle.
Gostava de números, mas só porque as exatas tinham muito pouco de humanos.
Não acreditava em fé, em espiritualidade, nem em religião.
Achava que veio do macaco ou de uma explosão.
Não acreditava em mudanças drásticas, as práticas, mas era fã confesso de sua teoria.
Era orador, mas dispensava uma boa oração.
Entoava prosa, mas fazia questão de passar longe da poesia.
Sonhava em ser contador, bancário, analista, político ou economista.
Nunca entendeu Shakespeare, mas achava chique – já que era inglês.
Andava pra cima e pra baixo com um livro na mão, mas nunca foi visto com um caderno.
Devorava o pensamento alheio, mas em grande parte do tempo desprezava os seus.
Não ficava tranquilo enquanto não se dava o nome aos bois.
Era o fã número um dos rótulos e embalagens.
Comprava o jornal na banca e o frango na padaria.
Adorava meia dúzia de lugares, três restaurantes e aquele museu.
Conseguiu sinteticamente colocar a vida toda num papel.
Demorou um tempo pra decorar.
Quando decorou, amassou o papel. Jogou no lixo reciclável.
Nunca entendia como podiam complicar tanto a vida.
Era tudo tão prático. Tão lógico quanto dois e dois são quatro.
Tão sem… vida?

linhas finas

Assina aqui embaixo, nessas linhas imaginárias que criaram pra gente brincar de falar sério.
Faz crer nos asteriscos, estrelas no papel onde a gente vive escondendo significados.
Pense em pausas, pautas reticentes para um mistério que paira no ar.
Aproveite o momento pra não dizer o que nasceu pra ser dito. A não ser, claro, que isso possa ser escrito – nessas linhas tortas que alguém desenhou pra todos nós.
Dois pontos depois você estará sozinho, perdido em rodeios, com um contrato na mão.
É assim que a sociedade caminha, burocrática, mediocremente portentosa em saber, deliciosamente ordinária ao pensar. É por isso que inventaram cadernos sem linha, para que aos que não entendem, pudesse se desenhar.

Assina aqui embaixo, nessas linhas manchadas de tinta de caneta velha, recém-saída da gaveta cheia de coisas velhas que você usa pra guardar coisas que não precisa mais. A não ser que elas possam ser úteis para colocar no papel o que esqueceu de contar.
Faz crer nessas cláusulas, versículos tirados de um livro cheio das leis.
Pense em pontos, pecados que possamos transformar em assuntos para brigas posteriores.
Aproveite o momento pra esquecer do que foi dito. A não ser, claro, que isso possa ser escrito – nessas linhas opacas que alguém desgastou de tanto apagar, depois de muito usar.
Dois pontos depois você estará comigo, discutindo meios de ir embora, com um contrato na mão. É assim que a sociedade caminha, falsamente prática, objetiva em complicar o objetivo, com poucas metas e muitos tiros pra dar. É por isso que jogaram esse caderno fora, não tinha mais um espaço sequer pra se rabiscar.

Assina aqui embaixo, mas antes leia as linhas finas que eu criei pra gente se enganar.
Nelas se queima todo o trabalho, todo dito ainda não feito, todo acordado.
É aqui que se encontram as brechas pra anular o contrato que você acabou de assinar.

do outro lado do rio

Duas pessoas se encontram do outro lado do rio.
Uma delas volta pra casa pela ponte, a outra assiste sua volta ao luar.
Seguiu seu contorno e acompanhou a sua sombra até a segurança do lar.
Sorrateiramente vê a porta da casa fechar.
Sua silhueta em casa se movimentar.
Tão feliz por estar bem, tão triste por não se fazer notar.
A janela se abre e, num pulo, fica sem ar.
Coragem faltava pra se aproximar.
Voltou pelo caminho errado de tanto chorar.
Lá dentro da casa, alguém, na mesma hora, começa a rezar.
Do outro lado do rio alguém contou pras estrelas que era hora de se acostumar.
Uma delas pediu pro céu mais sorte pra poder amar.
A outra, coragem pra enfrentar o azar.
A primeira não sabia como se realizar.
A segunda decidiu parar de sonhar.
Essa é a história de duas pessoas que nunca, realmente, chegaram a se encontrar.

inferno

Uma velha senhora me acompanha enquanto retiro o lixo da noite interior. Ela me olha com ar de reprovação, como se um crime eu tivesse cometido. Nesses sacos pretos, enganava-se, só constava vergonha mesmo.
A miséria das calçadas deste bairro combinava com a desfaçatez da combinação das roupas que preferi usar por prazer. Nas ruas, um ônibus passava a cada quinze minutos, suas janelas pintadas de pares de olhos perdidos olhando para gente como eu, despedida de seus sonhos.
Naquela manhã, enquanto a velha senhora me olhava com ares de reprovação e um ônibus passava a cada quinze minutos com janelas pintadas de pares de olhos perdidos olhando para gente como eu, resolvi seguir a direção do vento, que apontava, por sinal, para o leste de onde eu costumava observar. Sussurrava ao meu ouvido algo sobre um pátio repleto de almas perdidas tentando se encontrar. Não encontravam a saída, ao que parece, porque alguém roubara a placa e seus dizeres. E quem é que consegue nos dias de atualmente saber pra onde ir sem que o digam pra quê?  Uma voz parece querer me dizer alguma coisa a mais, assim como a velha senhora e seu olhar reprovador, os pares de olhos perdidos dos ônibus que passavam a cada 15 minutos e o vento sussurrador. Hoje, entretanto, só posso, só quero e consigo tirar o lixo acumulado da noite passada – antes que reclamem.
Já reclamam por vezes que já não me visto tão bem, que meus horários não são apropriados, que meu estilo é nocivo, que meus aparatos são desnecessários, que meus talentos são inúteis, meus motivos, atos de frescura; que meus gostos são excêntricos, que minha causa é perdida, que meu momento é passageiro, que crises são tempo gasto, que toda desgraça não é alheia, que meu sossego é bandido, que meu olhar é raivoso, que minha nobreza é ultrapassada, que meu andar é engraçado, que meu jeito não é certo, que meus sonhos estão escritos e talvez, com sorte, sejam apanhados em verdes campos onde eu possa escrever poesias em paz, sozinho, porque assim me é desejado. Não deve ser normal.
O santo que vivia aqui, hoje mora num saco preto de lixo, lá fora, e recebe olhares de reprovação de velhas senhoras, olhares perdidos de pares de olhos perdidos e chamados do vento do horizonte. Esse foi o crime. Ser uma aberração. Quando a chuva chegar, talvez o fogo apague. O diabo que sou, só é porque a vida toda você só me deu inferno.

noites sem lua

Não há um brilho sequer enquanto percorro essa estrada. Os postes viajaram, os vagalumes se foram, o fogo enjaulado foi. Não há mais nada que guie as direções, não há placas que apontem o sentido, não há luzes, nem mesmo as de fim de túnel.
O cego andar na calada de um dia sem luz é um absurdo desejo de encontro. Que derramem aqui, agora, se necessário, todo o sangue de minhas lutas. Um baque surdo e desejo atendido: cá estou no chão. Deitado, olho para o céu. As estrelas não brilham mais. Não há aviões de passagem, não há torres emitindo um sinal. Não há sintoma de que eu possa me levantar. Mas me levanto mesmo assim. E prossigo, caminhando ordinariamente por uma dessas noites sem lua.

não

Não não quer dizer sim, nem talvez ou quem sabe. Não é não em negativa clara, direta e sincera. Mas é preciso saber ser sincero. É coisa que vem da alma, então poupe-nos das aparências.
Não é um grito de chega, é um conselho, apoio, é não gerar expectativas onde elas certamente irão florescer. Não também não quer dizer nunca, nem nada. Não não é momentâneo, mas para o momento tem que bastar. Não aguento, não ajudo, não lamento. O não tem seus rebentos.
Não é decisão conforme cabeça ou coração, aqui tanto faz; é simbologia de força, de medo e de respeito a si. E ao próximo.
Não machuca, mas um não disfarçado de sim machuca bem mais. É lobo e cordeiro, tem efetivamente zero a colaborar, só enaltece os erros, disfarça incômodos, só alimenta a discórdia. Zap de discussão.
Quando disseres não, que seja cuspindo em minha face, olhos nos olhos, negativa na face, dedinho indicador pronto pra reforçar.
Não é basta. Por tempo indeterminado. Pode ser pra sempre. Pode ser pra ontem. Mas precisa ser de verdade. Se não sabes dizer não, desacovarde. Se não sabes se é um não, pense antes. Se souber, aqueça bem suas palavras. E liberte-as.

limbo

Você não está lá, nem cá, não sabe se quer ou se não quer, se briga ou desiste, se viaja ou descansa, você não sabe se o buraco que caiu era o fundo ou se o fundo está mais pra baixo e se está, pelo menos por agora, numa espécie de lucro.
Você não sabe se casa, se separa, se tenta, se não tenta e nem mesmo sabe se vale a pena comprar uma bicicleta. O trânsito é ruim, mas te faz companhia. O transporte público é ruim, mas com ele você anda. Os dias não passam, mas tem sempre amanhã. Tem sempre o dia do salário, o jogo do time e o outro dia do salário.
O salário chega e não te faz menos miserável, mas faz disfarçar bem até chegar a hora de pensar no que fazer. Você não sabe se quer ir ou se quer ficar, se perdoa ou se esquece, ou se perdoa e esquece; ou se começa de novo, se continua pra ver onde dá, se toma banho ou come, até mesmo porque dormir parece uma terceira opção tão mais agradável.
Você não sabe se acorda e se faz algo com esse dia, ou se continua a dormir, porque isso também é algo e às vezes é isso que o dia merece. Ou que você acha que ele merece.
Você não sabe se anda mais pra não subir tanto ou se esforça pra cortar caminho, se aplica tudo o que ganha ou se diverte até não poder mais; você mal sabe que horas começa o seu dia, mas sabe perfeitamente a hora que ele termina e é por isso que você dorme, porque não quer acordar e começar de novo um dia que acabou de acabar.
Eles parecem sempre o mesmo, a mesma vitrola, discos que você canta de trás pra frente. Parece um sonho, mas a real é que é real e não é um sonho porcaria nenhuma. E você não sabe mais se deseja que seja um sonho, porque se os sonhos são assim, eles não são nadinha como aqueles que cresceu achando que sonhava.
Você não sabe nem mesmo se o seu estado define euforia, alegria, tristeza, reflexão ou depressão. Tudo parece uma coisa só, você não parece encontrar um caminho, mas também não parece perdido.
É só um estado de inoperância que você precisa lutar pra sair. Ou aceitar e ficar. Aqui não está claro, mas não se vê a escuridão. Bem-vindo ao limbo.

meia volta

O fim da estrada
que leva ao começo da rua
que leva ao centro da cidade
que leva ao bairro japonês
que leva ao parque das nações
que leva ao bosque das flores
que leva ao topo do morro
que leva a uma trilha de café
que leva ao milharal
que leva à casa do seu josé
que leva à rotatória
que faz dar meia volta
e passa pela casa do seu josé
que leva ao milharal
que leva a uma trilha de café
que leva ao topo do morro
que leva ao bosque das flores
que leva ao parque das nações
que leva ao bairro japonês
que leva ao centro da cidade
que leva ao fim da rua
que leva ao começo da estrada.