parede de flores

Dormindo no alto de uma montanha, recostada à beira de um precipício, um casarão excluído de seu vilarejo recepcionava o sol primeiro. Ele o iluminava com o afeto de uma mãe que não via a filha por dias, e ajudava-a a se vestir imponentemente, mesmo que fosse apenas para o café.

Toda manhã suas paredes cor-de-pele, desnudas, manchadas pelas guerras de seus antepassados e pelas crianças que destruíam-nas jogando bola, pedras ou o que for, ganhavam uma camada de flores que crescia austeramente em movimentos circulares, como uma bailarina que acabara de fazer seu primeiro giro, entrelaçando as pernas e curvando um dos braços como numa saudação.

Preenchia as feridas aparentes, tijolos adoecidos, fiação que há muito não se dispunha a fiar. Contornava as janelas de modo a deixar que seus vidros quebrados ainda recebessem a luz, costurava as entranhas do porão de forma a deixá-lo menos sombrio, um cenário imaginado por um casal de apaixonados daquela Paris apaixonada dos tempos de ouro do cinema.

Ao chegar ao insosso telhado, imitava uma senhora que acabara de sentar para bordar um tapete de renda. Mãos ágeis, apesar da vista cansada, construíam formas geométricas em que não se identificava um padrão – equiláteras, escalenas e isóscelenas -, e cabe aqui acreditar que essas mãos não enxergavam o que faziam, mas sabiam exatamente o que deveriam fazer e como fazer.

Ao revestir a chaminé num tom muito parecido com o visto nos céus daquele outono, impulsionou suas raízes, flexionou-as e saltou daquele alto, dúzias de raízes de flores caindo ao redor de suas paredes, como numa cortina havaiana, como um véu que noivas usavam nos votos de união com seus noivos na igreja perto do hotel.

Eram tão belas que os transeuntes que ali passavam nunca poderiam deixar de notar. Azuis pálidos, verdes petróleos, vermelhos do mar, brancos de gelo, rosas abóboras, amarelo ouro, amarelo prata, bronze puro, cobres, cinzas, chumbos, roxos berrantes, cerejas cintilantes, laranjas sem casca, jabuticabas negras, lilases híbridas em verde, terra e musgo. O vestido mais belo, para aquela casa tão velha – que agora voltara a ser menina, na primeira aula de ballet. Mamãe fazendo tchau pela janela, lá fora o sol a raiar. Allongé, gran plié, jeté passé.  

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