pesadelo

Ontem eu sonhei que estava num pesadelo. Era tarde da noite e um mar de gente no deserto me perguntava o que tinha acontecido, pronde eu ia, aonde quer que eu fosse. Era tarde da noite e me sufocavam de olhares estranhos, expressões que gritavam dúvida, como se eu já não conhecesse a dúvida como um irmão conhece a um irmão. Era tarde da noite e as pessoas não iam embora, elas agora tiravam seus travesseiros de penas de ganso do bolso e circulavam por aí, chutando areia, olhando como se eu tivesse feito algo de muito grave ou algo de nada grave. Era tarde da noite e elas agora cerceavam toda a dimensão do sonho, não tinha escapatória, era mesmo tarde da noite e até mesmo nos sonhos a gente precisa dormir, talvez assim me deixassem em paz. Era tarde da noite e ninguém se calava, perguntavam entre si “quem era aquele?”, “porque ele é assim?”, “o que fizeram com ele?”, “nunca viu um espelho?”. Era tarde da noite e era como eu não estivesse ali, cochichavam, riam de mim, embora, por ora, agora me parecesse que não era exatamente de mim, quem saberia dizer? Era tarde da noite e eu certamente não saberia dizer. Era tarde da noite e nada de amanhecer, nada de acontecer, nada. Era tarde da noite e eu simplesmente virei pro lado esperando cair da cama, se numa cama estivesse, e acordar desse enredo malfadado. Era tarde da noite quando, acreditando estar consciente, perdi a consciência de vez. Era tarde da noite quando aceitei o destino. Era tarde da noite quando abracei o pesadelo e dançamos juntos ao som das risadas daquele mar de olhos. Era tarde da noite. E continua sendo tarde da noite.

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