sobreviver

O instinto de sobrevivência reside no planejar e no atuar de forma a seguir em frente com a vida, com o menor número de danos possíveis. Quem de nós não esconde, subverte ou mente pra si, na sala, no quarto, na balança, no trabalho ou na mesa de bar? Quem de nós conseguiu passar duas, três, quatro décadas enganando o mínimo possível, o tolerável em nosso juízo, para que a aparência permitisse maior conforto em uma sociedade repleta de julgadores e oriunda de preconceitos? Esses vivem aqui e ali, adormecidos, domesticados e selvagens, cada um com o seu, seus, e deus me livre de um plural que me faça demonstrar quem eu realmente sou. De factível temos nossos atos, mas as intenções muitas vezes só aparecem de facto para quem vê. E nem sempre a gente se vê fora de um espelho, preferindo tomar ação só quando a coisa está feia e não existe mais saída que não seja abaixar a cabeça, jogar o rancor fora, se desarmar do orgulho e pedir, engolindo em seco, perdão. É tentar um recomeço mais digno, dentro da dignidade que nos convém, claro, porque pontos de vista serão sempre pontos de vista; seja você esperto, covarde, malandro ou simplesmente um ser humano complexo o bastante pra entender que se acerta e se erra na mesma medida que todos os demais acertam e erram. A diferença é que alguns foram corajosos o suficiente para decidir por acertar mais. A isso chamam de maturidade. E mesmo que eu não a tenha pra mim, leio o suficiente dos demais pra saber o que eu quero, como espelho, modelo e ideal. O exemplo está aí para observação. A partir daqui, e os precipitados, ansiosos e instintivos até de antes, costumam separar o joio do trigo, simplesmente porque há uma seleção, quer você queira ou não, que faz com que não nos submetamos ao mesmo tipo de humilhação por mais vezes do que o coração pode aguentar. Ele nunca quebrou de verdade, só anda e desempenha ferido, marcado demais para cicatrizar. Porque foi justamente esse instinto de sobrevivência, aquele que te faz, por vezes, algo que você custa a acreditar que está ou é, aquele mesmo, que nos faz decidir por ser exatamente quem somos, que faz a ficha cair: é hora de seguir ou é hora de partir. Diga adeus, até logo e sofra comigo por mais um dia em que sobrevivemos. Apesar de, agora e para sempre.

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