trem escuro

Existe um trem que passa pelas montanhas nevadas como uma bala, questão de segundos, janelas sempre apagadas. Batizaram-no de trem escuro. Há quem acredite que seja um autêntico trem fantasma, não aquele todo espirituoso, cheio de monstros, humanos vestidos de monstros, que encontramos em pequenos parques de diversão. Um trem fantasma, sim, já que seus passageiros teriam todos morrido, mas de alguma forma continuaram dentro desse trem que continua a caminhar pelos trilhos como se nada tivesse acontecido, como se tudo tivesse acontecido. Seu motorista talvez fosse outro fantasma, ou talvez só estivesse de luto, coitado, e dirigisse na penumbra como gesto de compaixão pelos passageiros que se foram, mas que ali continuavam. Todo dia, toda noite, corrijo, 8 horas e 42 minutos da noite, sem mais, nem menos, o trem escuro, autêntico trem fantasma, passava rápido, questão de segundos, janelas sempre escuras. Há quem jura um dia ter visto uma luz. Uma só janelinha acesa, distante janelinha, um fecho de luz. Um pequeno ponto brilhante no terceiro vagão, de doze vagões; talvez não fosse um trem fantasma, afinal. Essa luz na época foi o assunto do dia, o da semana e o do mês. Passaram os meses e a luz no trem passou de assunto para boato, e de boato para mentira foi questão de tempo. O garoto que viu a luz hoje seria um homem formado que, se vivo, caminharia todo dia para o vão entre as montanhas mais próximas, o suficiente para ver o trem passar, ainda todo escuro. Um dia encontraram o corpo do menino numa estrada ali perto, duas milhas corridas longe da cidade. Havia uma estranha luz em seus olhos. Seu enterro foi marcado para as 8 horas e 42 minutos da noite seguinte. Ninguém compareceu.

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